As dificuldades para ampliação salas de cinema no Brasil - LFMORAU

as dificuldades para ampliacao de salas de cinema no brasil

As dificuldades para ampliação do número de salas de cinema no Brasil

O assunto que mais desperta discussões, às vezes acaloradas, entre Exibidores, Distribuidores, Fabricantes e Fornecedores em Geral é a relação entre número de habitantes por salas de cinema, que hoje é de aproximadamente 68 mil habitantes por sala. Essa relação se mostra, ainda mais desfavorável no Nordeste, onde temos 127 mil habitantes por sala. Na região mais favorável, Sudeste, não passa de 52 mil habitantes por sala.

A equação que mais esquenta o debate, não é de simples solução, pois para ampliarmos o número de salas necessitamos motivar a frequência através de um conteúdo atraente, além de outros inúmeros fatores, mas elencaremos os sete principais, sem se restringir às características dos grandes centros urbanos, buscando retratar a realidade Brasileira, como um todo.

  1. Existência da Sala de Cinema
  2. Conteúdo
  3. Preço do Ingresso
  4. Bomboniere
  5. Projeção Digital
  6. 3D
  7. Tela Gigante, Som imersivo e Experiência 4D
  8. Eventos
1. Existência da Sala de Cinema

Embora muito discutível se o mais importante é o conteúdo ou a Sala de Cinema, tomaremos por base que sem a sala não há como exibir o conteúdo.
Hoje, o Brasil possui 5.800 Municípios, sem sala de cinema, onde os habitantes destas localidades deverão se locomover até o Município mais próximo, que possua sala de cinema, para assistir algum tipo de conteúdo.

Podemos afirmar, que com raras exceções, se locomover especificamente para assistir a um filme, não é algo usual para quem não possui o hábito de ir ao cinema, independentemente de qualquer outro fator.

É muito comum observar alguns cinemas que operam somente alguns dias da semana, numa clara inciativa de minimizar seus custos e viabilizar sua existência, mas isso acaba dificultando sua relação com os Distribuidores, que não necessariamente pactuam com essa estratégia de subsistência.

Não é surpresa para ninguém, mas manter uma sala de cinema em operação demanda recursos, como qualquer outro estabelecimento voltado ao público e se não houver bilheteria e venda de pipoca, a conta não fecha.

2. Conteúdo

Seja um blockbuster de alguma interminável franquia ou um legítimo representante do cinema expressionista, sempre haverá alguém interessado, quando houver identificação entre audiência e conteúdo.

A dificuldade é que nem sempre existe a identificação entre as partes, pois, o conteúdo adequado deverá estar disponível às expectativas locais, como um fator decisivo para o retorno da bilheteria.

Os grandes Distribuidores possuem, cada um deles, estratégia para os seus lançamentos e brigam palmo a palmo, pela conquista de espaço, nos grandes centros urbanos, mas não demonstram a mesma disposição em todo o território nacional, mesmo sabendo que com a digitalização, os custos de operação e logística tornaram-se muitíssimo menores. De qualquer forma estamos falando sobre empresas privadas que buscam retorno e reciprocidades aos seus pesados investimentos, portanto não cabe censura ou discussão, sem que haja um olhar particular e detalhado sobre cada caso.

Quanto ao conteúdo internacional dito alternativo e/ou cultural encontramos, ainda mais, uma maior concentração nos grandes centros urbanos, ficando a exceção por conta dos Distribuidores que não encontraram espaço na disputa pelas salas de cinemas das principais cidades Brasileiras.

Vale destacar o conteúdo nacional, seja de que Distribuidora for, pois além dos incentivos governamentais às referidas produções, ainda temos a Cota de Tela, como “estímulo” para que todos os Exibidores exibam o conteúdo verde e amarelo.

O centro da discussão neste caso é se o filme produzido, muitas vezes, de forma incentivada pela Agência Nacional, dará retorno de bilheteria ou apenas amortizará a cota de tela de cada um dos Exibidores. Talvez um bom caminho fosse o Produtor beneficiado com recursos do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual – ANCINE), ser sócio no sucesso ou no fracasso da bilheteria de sua criação, fato que não acontece atualmente.

3. Preço do ingresso

Em outros países, os quais sempre buscamos nos espelhar, os valores dos ingressos são geralmente menores que os nossos. Essa é uma afirmação que merece uma análise mais detalhada, pois se pensarmos no México, onde eles possuem mais que o dobro de salas do Brasil, para uma população 80 milhões menor e, ainda com uma predominância de grandes redes de cinema em detrimento aos pequenos Exibidores, o entendimento fica mais claro, pois o hábito de ir ao cinema está consolidado, além do poder dos grandes Exibidores contra às exigências dos Distribuidores mantém o preço do ingresso em um patamar diferente do nosso.

Outro agravante é a ilusão da meia entrada, motivo de orgulho para muitos desinformados e seus defensores, que creem que a meia promove, de fato (!!!), a cultura e a justiça social. Os preços tratados pela lei são livres e os empresários determinam os preços estimando uma cota de meias entradas, para que no balanço entre as meias e as integrais, o lucro seja o mesmo. Logo, a Lei impõe um subsídio que não atende para o que foi criada, além de distorcer a tarifa. Ledo engano acreditarmos que a boa (??) vontade do legislador é suficiente para garantir o benefício.

A criatividade da livre iniciativa, também promove descontos e benefícios, com ações de fidelização de clientes, nos mais variados setores e segmentos, tais como Cartões de Crédito, Bancos, Operadoras de Telefonia, entre outras ações.

Um fato que raramente se altera é a participação expressiva, as vezes majoritária, dos Distribuidores na divisão da bilheteria, portanto existe numa ponta as ações de promoções e marketing e, na outra extremidade o pagamento de todas as despesas com o que sobra do faturamento. Uma equação que quando não é bem feita, se torna o embrião para a abertura de uma futura igreja, onde antes havia uma sala de cinema.

4. Bomboniere

Depois da bilheteria este ainda é o item com maior representatividade, com a vantagem de ficar integralmente ao Exibidor, sem ter que dividir com o Distribuidor.

Diferente do que muitos pensam, o valor do ingresso está relacionado com o preço da pipoca e é um erro crer que é a ganância do Exibidor que determina o valor do combo da pipoca e refrigerante, quase mandatório para a maioria dos cinéfilos.

A grande maioria das salas de cinema está dentro de Shopping Centers, com cobrança de condomínio, restrições de acesso e dificuldades operacionais, fatores que encarecem o preço final dos produtos da bomboniere, tornando-os mais caros do que é praticado pela romântica figura do pipoqueiro e seu carrinho de pipoca na saída de alguns eventos. Por sinal alguns Exibidores somente assinam seus contratos de implantação, com as Administradoras de Shoppings, se houver a proibição do pipoqueiro na frente do empreendimento.

Os itens de uma bomboniere de sala de cinema possuem embutido em seu custo, a compensação por uma negociação difícil com o Distribuidor, além da meia entrada entre outras promoções. Acreditar que tornar Lei a possibilidade de levar pipoca de casa e ficar impune à um futuro aumento do ingresso é pura ilusão.

5. Projeção Digital 3D

As sessões 3D são mais caras que as tradicionais, entenda quais os motivos.
A oferta de conteúdo 3D vem crescendo a cada ano, mas sem a garantia de qualidade, tanto conceitual, quanto técnica. O que quero afirmar é que independentemente de o conteúdo ser qualificado ou não, ainda temos os aspectos técnicos do 3D e uma pesada carga de impostos na importação destes equipamentos.

Quais são estes pontos técnicos?

a. Um conteúdo filmado em 3D X um convertido para 3D
Um filme completamente filmado em 3D e com toda sua fotografia direcionada para maximizar esta tecnologia, a qualidade é muito superior ao que foi convertido para 3D, mas filmado em 2D.

Uma produção filmada em 3D oferece ao Diretor e sua Equipe a possibilidade de organizar a cena, com todos os seus efeitos, simultaneamente com a captação das imagens pelas câmeras 3D e suas duas lentes que filmam a mesma cena de ângulos distintos, para quando da união das imagens se obtenha o efeito 3D desejado.

Num filme convertido para o 3D, se utiliza um software de renderização das cenas para dar um efeito de profundidade, sem que o Diretor e sua Equipe, necessariamente tenha trabalhado cada passagem durante as filmagens para extrair o melhor resultado do efeito 3D. Dessa forma a experiência 3D será menos imersiva e, podendo até mesmo comprometer as cenas de maior movimentação.

b. Sistema de Projeção subdimensionado
Muitos cinéfilos já se depararam com uma projeção empobrecida, seja 2D ou 3D e culparam a qualidade do conteúdo, mas isto não é totalmente verdade.

Infelizmente alguns Exibidores, para minimizar custos, adquirem projetores subdimensionados para as dimensões de sua sala de cinema, quando não tentam compensar a menor luminosidade, com a abertura da potência da lâmpada, atingindo o pior dos mundos – equipamento subdimensionado e um alto custo operacional pela troca constante de lâmpadas – item de custo elevado.

c. Sistema 3D de baixa qualidade
O sistema 3D é composto pelo polarizador 3D, óculos 3D e tela especial (exigido pela, quase totalidade dos Fabricantes 3D atuais).
Estamos falando de três itens importados, com exceção da tela, que também possui fabricante nacional, todos com um custo considerável e diferentes resultados técnicos.

Sem entrar nos detalhes da especificação correta dos equipamentos 3D, para cada sala de cinema é importante que o Exibidor utilize um Sistema 3D compatível com as dimensões da sala, com as características do projetor digital e de qualidade comprovada.

A projeção 3D “rouba” luz das imagens e isso faz com que seja necessária a utilização de polarizadores 3D com qualidade superior, que possuam alta taxa de eficiência luminosa, para compensar e equilibrar a qualidade das imagens que chegam até os olhos dos cinéfilos. Aliado a isto uma tela que ofereça o ganho de luz adequado até os óculos 3D.

Os óculos 3D mereceriam um capítulo à parte, mas não nos aprofundaremos, ficando apenas o alerta que, independentemente da qualidade, todos os Óculos 3D possuem uma vida útil pré-determinada pelo Fabricante, que nem sempre é observada por todos os cinemas.

A conclusão é que a qualidade das imagens 3D, com ou sem legendas, assistida nas salas de cinema percorreu um longo caminho, com inúmeras premissas, que quando observadas faz com que a experiência 3D seja extremamente gratificante e valha cada centavo adicional que foi cobrado no seu ingresso.
Oferecer uma experiência 3D de qualidade impõe, ao Exibidor, investimento desde a compra dos equipamentos até a constante manutenção (lavagem e embalagem) e troca dos óculos 3D danificados.

6. Tela Gigante, Som imersivo e Experiência 4D

Mais e mais Exibidores buscam oferecer uma experiência diferenciada ao seu público e alguns atributos tecnológicos começam a fazer parte dos complexos de cinemas Brasil afora.

Essa realidade ainda é restrita aos grandes centros urbanos, plenamente justificado pelo seu alto investimento e não será isto que alavancará a ampliação do número de salas de cinema, mas busca criar diferenciais para atrair o público ávido por novas experiências.

As telas gigantes atraem cada vez mais público para uma experiência fora da curva, mas como sua implantação exige uma infraestrutura considerável, ainda não atingimos um número expressivo de salas com este atributo.

Um exemplo da infra a qual me refiro vai do pé direito muito acima do usual, até a utilização de dois projetores digitais com dois polarizadores 3D (ao invés de um mais um, nas salas convencionais) e, sem considerar que normalmente é uma sala para mais de 400 lugares, exigindo a exibição de blockbusters de grande apelo ao público.

Obs.: Importante destacar que hoje já é possível telas gigantes, com apenas um projetor laser e somente um polarizador 3D plus.

O som imersivo é quase que mandatório nas salas VIP e/ou com telas gigantes, mas por utilizar quase o triplo de caixas e amplificadores que o normal, também sofre restrições para se popularizar, mesmo nos grandes centros.

Uma experiência 4D é o que temos de mais próximo às experiências vividas nos parques temáticos, pois podemos “interagir” com o filme, através de movimentos, odores e sensações provocadas por assentos especialmente fabricados para ativar ainda mais o nosso imaginário em reação aos estímulos recebidos mecanicamente.

As salas 4D são ainda bem raras e, quando as encontramos ocupam parcialmente suas instalações, pois dependem totalmente da adequação à um conteúdo específico, tornando-as uma conquista ainda em desenvolvimento.

7. Eventos

Ainda pouco explorado pelos Exibidores Brasileiros, as iniciativas efetivadas se mostraram interessante, tais como finais de campeonatos internacionais, apresentações musicais, palestrantes renomados, entre outras ações.

Tenho certeza que o conteúdo alternativo crescerá muito e é exatamente neste ponto que entraremos no conceito das Salas Multiuso. Para os grandes centros é um complemento aos momentos de inatividade ou uma oportunidade de um grande evento, mas para os mais de 5.800 Municípios que não possuem salas de cinema, acrescidos das várias cidades que o cinema funciona apenas dois ou três vezes na semana, é o caminho de atrair e viabilizar uma operação saudável de um espaço multiuso para Entretenimento, Cultura e Educação.

É importante destacar que o modelo multiuso que proponho foge de apenas projetar ou exibir diversos conteúdos, indo mais além, para propiciar a efetivação de um Centro de Referência em Educação, Cultura e Entretenimento, mas isso é uma outra história, que dissertarei no próximo artigo.

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Profissional com mais de vinte e cinco anos de atuação nas áreas de entretenimento, broadcast e serviços corporativos, com atuação direta em ações de desenvolvimento e estruturação de negócios no Brasil e exterior, startups e fusões.

Vivência efetiva como Executivo e Consultor, com destaque para os projetos da Quanta, MasterImage 3D, Telem, Universal Networks, TVA, TV Brasília e TV Goiânia. Empresas onde exerceu efetiva gestão nas definições estratégicas e desenvolvimento dos negócios.

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