As Grandes Salas dos “Pequenos” Exibidores - LFMORAU

As Grandes Salas dos “Pequenos” Exibidores e a União que Faz a Força

As Grandes Salas dos “Pequenos” Exibidores e a União que Faz a Força

No meu último post – As Dificuldades Para Ampliação Do Número De Salas De Cinema No Brasil – apontei as dificuldades que enfrentamos no cenário de exibição e distribuição do Cinema Brasileiro.

Agora o objetivo é apontar alguns caminhos para tentar mudar nossa realidade.

Entre os vários pontos de possíveis análises, um chama a atenção, sendo o elo mais frágil na relação EXIBIDOR X FORNECEDOR + DISTRIBUIDOR e, vem diminuindo nos últimos dez anos, ainda é o potencial interessado na administração de salas em localidade fora da vitrine urbana.

Estamos falando dos Pequenos Exibidores, que são os que mais sofrem com os preços dos Fornecedores e, com as condições menos favoráveis oferecidas pelos Distribuidores.

O perfil dos pequenos exibidores, com até três salas por complexo, representavam 874 salas em 2007 e hoje representam 601 salas em 2015, queda de 31,2% em oito anos.

 E a tendência é que este número reduza cada vez mais…

 

O Passado te Condena

Cine Avenida
Fonte: curitibaantiga.com

O cenário atual começou a ser delineado há muitos anos, começando uma expressiva diminuição de salas, saindo de 3.300 no ano de 1975 para 1.400 em 1985. Por outro lado, o Brasil produziu mais filmes, chegando a 100 em 1978 e a 103 em 1980.

A participação dos filmes brasileiros no mercado cresceu de 14% dos ingressos vendidos em 1971 para 35% em 1982, mas o Brasil enfrentava uma grave crise econômica e faltava dinheiro para o brasileiro ir ao cinema, ao mesmo tempo faltava dinheiro para produzir filmes.

E faltando dinheiro, a produção voltou a cair e os exibidores começaram uma batalha judicial contra a lei que os obrigava exibir o conteúdo nacional, e em muitas salas a simples decisão foi de parar de passar filmes brasileiros, contrariando a lei.

 Vivíamos em um período que, o melhor que se conseguia extrair do cinema nacional era os filmes dependentes dos subsídios governamentais ou os filmes livres de dinheiro público, a indústria paulista da pornochanchada e do cinema de gênero da chamada “Boca do Lixo”.

Já o glamour das grandes salas de cinema de rua, com 1.000, 2.000, 3.000 até 5.000 lugares começou a dar lugar a diferentes tipos de negócios e o cinema iniciou sua migração para os shoppings centers, com maior número de salas e, também menor quantidade de lugares. Além de outras motivações do ponto de vista operacional e de segurança, já que os índices cresceram absurdamente nas últimas décadas.

Aliado a isto, a oferta de conteúdo aumentava com o passar dos anos, com boas produções e outras nem tanto, tornando inviável continuar com o antigo modelo de negócio, pois encher uma sala de 2.000 lugares tornava-se uma missão quase que impossível.

As grandes salas de rua foram dando lugar a igrejas, magazines, lojas diversas, escolas, casas de shows ou, simplesmente fecharam suas portas.

Ainda temos várias grandes salas remanescentes Brasil afora, mas claramente passando por dificuldades de operar, sendo a alternativa dividir suas instalações em salas menores, bem como agregando outras atividades ao grande espaço disponível.

A questão é que nem sempre a região, onde se encontram essas grandes salas, comportam iniciativas de divisão em salas menores, seja pela falta de público para exibição de vários conteúdos simultâneos ou, a falta/incapacidade de investimentos necessários em infraestrutura e equipamentos ou, a supervalorização imobiliária.

Isso explica, em parte, a derrocada do modelo de salas de cinema de rua, fora dos shoppings centers, deixando claro que se nada for feito para reverter este cenário, a extinção é questão de tempo, pouco tempo.

O Brasileiro adquiriu gosto (ou hábito?) por produções hollywoodianas e crer que mudar isso para o tempo que o cinema nacional lotava salas de 5.000 lugares é impensável até mesmo para os mais ferrenhos defensores das produções nacionais.

Antigamente, ir ao cinema era um evento social!

Não existia Facebook, Twitter, Whatsapp, Instagram, Messenger, celular. Qualquer meio de comunicação e interação à distância, talvez, para os mais abastados o telefone convencional e olhe lá.

Além disso, escassez de opções de entretenimento, sobretudo no lar.

Canais pagos?

Pay per view?

Netflix?

Videocassete, DVD, Blu-ray?

Nem pensar!

Logo, podemos concluir que o cinema do passado supria diversas carências, do ponto de vista do entretenimento e social.

Mas, o mundo mudou e a tendência para as salas de cinema atuais estão relacionadas às melhores tecnologias possíveis e isso representa pesados investimentos em equipamentos, infraestrutura e customização de conteúdo.

Grandes salas necessitam de algo além dos filmes de Hollywood, pois não há conteúdo cinematográfico suficiente, com o necessário impacto, para lotar uma sala com mais de 1.000 poltronas todos os dias ou algo próximo a isso.

E mesmo aqueles que obtêm uma excelente resposta de público, muitas vezes têm pouco a ver com a qualidade. Há possibilidade de mídia, de marketing e outros elementos intrínsecos que engajam o público.

Os sintomas das experiências do passado passaram totalmente despercebidos e muitos ainda preferem acreditar que o sucesso de suas salas de cinema se dava somente pela qualidade do conteúdo exibido.

 

A Reinvenção e Inovação Necessária para o Pequeno Exibidor Sobreviver

Um dos primeiros passos é a adequação às características da região onde o complexo está instalado, com a intenção de ampliar as chances de sucesso e minimizar os riscos. Atrair a audiência onde quer que ela esteja com a intenção de difundir conteúdos com o maior nível de multidisciplinaridade possível, impactando na taxa de ocupação do espaço.

Logo, um serviço de satélite é quase que mandatório para impulsionar e diversificar esta oferta.

Exibir além do tradicional, com conteúdo / evento de ocasião e grande interesse, espetáculos culturais e/ou educacionais, treinamento e capacitação de profissionais, eventos corporativos, transmissões para integração, centro de convivência e cidadania etc.

Essa multidisciplinaridade lhes dará fôlego adicional para que consigam, pelo menos, continuar respirando com auxílio de aparelhos, só não é possível prever até quando.

O advento da digitalização via VPF, democratizou a obtenção de conteúdo no timing desejado pelo exibidor.  No entanto, sozinho, sempre estará muitos passos atrás dos multiplexes no que diz respeito à vantagem competitiva na cadeia operacional, e atratividade/diferenciais para o cinéfilo.

A reinvenção não é só do ponto de vista tecnológico e sim, na forma como o negócio pode ser organizado.

 

A União faz a Força

O lado interessante é que passam por esses mesmos Exibidores a possibilidade de viabilização da expansão e/ou abertura de salas nos Municípios menos visados pelas grandes Redes de Exibição.

Este perfil é responsável por metade do parque exibidor e, certamente, é capaz de agregar sua experiência de administrar e operar cinema em condições adversas, se comparadas às redes maiores, que possuem a proteção de um guarda-chuva corporativo.

 Afinal de contas, estamos falando de 360 complexos! Fonte: Relatório do Parque Exibidor OCA ANCINE

E se por um lado esta configuração manteve o circuito exibidor brasileiro vivo, principalmente nos pequenos munícipios, por outro atrasou seu desenvolvimento em vários aspectos, em especial pelas peculiaridades de cada exibidor, com boa parte deles, com gestão totalmente familiar.

E o que aconteceria se extraíssemos o melhor dessas peculiaridades para formatar um novo modelo de negócio?

Antes de apresentarmos uma possível fórmula, quais tipos de competências seriam necessárias?

  • Conhecimento do Business;
  • Organização corporativa;
  • Capacidade de investimento;
  • Acesso à subsídios e benefícios;
  • Relacionamento com Fornecedores e Distribuidores;
  • Relacionamento Governamental; e
  • Representatividade Nacional e Internacional.

 

Algumas constatações:

  • Dentro do Universo de 360 exibidores com até três salas, com certeza teremos interlocutores e gestores que atendam uma ou mais exigências, mas dificilmente todos os pontos listados.
  • O Brasil possui hoje 5.800 Municípios que não possuem sala de cinema, pois TALVEZ não se mostrem atraentes para os investidores, mas muitos destes Municípios necessitam (às vezes nem sabem disto) deste espaço para complemento educacional, qualificação e treinamento da mão de obra local, além de promoção e integração cultural.
  • A ANCINE possui o programa Cinema Perto de Você / Cinema da Cidade, que visa levar salas de cinema aos Municípios com menos de 100.000 habitantes, mas enfrenta dificuldade diante do limitado conhecimento operacional, por parte dos Municípios interessados.
  • O Ministério do Trabalho fala em “Bolsa Qualificação”, para empregados demitidos que devidamente matriculado em curso ou programa de qualificação profissional oferecido pelo empregador.
  • O Ministério do Turismo e da Educação desenvolveram o “Pronatec Turismo”. O programa qualifica quem já trabalha com turismo e também quem pretende se profissionalizar no setor.

Analisando o cenário acima concluímos facilmente que salas multiuso são o caminho para viabilizar alguns Programas e/ou Projetos Governamentais, pois diluem as verbas por diversas origens, sem sobrecarregar a Cultura, Trabalho, Agricultura, Turismo ou qualquer outro, fazendo com que os recursos sejam factíveis e defensáveis.

Outro ponto de análise é atrair a experiência de quem sabe administrar um espaço de entretenimento, com desenvoltura e sem fartura de recursos.

Descobrimos as oportunidades e as necessidades, agora fica faltando viabilizar um caminho para atender ambas.

 

Um Possível Caminho: A Associação dos Pequenos Exibidores

Uma associação num modelo jurídico que a qualifique e estruture para se credenciar a operar salas de cinema e multiuso, tanto no modelo privado, quanto no modelo “Cinema da Cidade” da ANCINE.

A ideia não é totalmente inédita e já foi defendida anteriormente, mas não caminhou no ritmo e caminho adequado, pois não há a possibilidade de nenhum viés político, sindical ou interesse próprio em detrimento do coletivo.

É totalmente possível uma Associação de Exibidores, sob um único guarda-chuva mercadológico, mantendo a identidade de cada uma das empresas exibidoras, mas adquirindo musculatura para articular com Distribuidores, Fornecedores e Governo.

Como já dito essa associação poderá se tornar, senão a maior rede de exibição Brasileira, uma das maiores, incluindo nessa análise as redes internacionais.

 

Conceito

Uma Associação de Exibidores pretende conciliar os interesses dos pequenos e médios operadores de cinema brasileiros com a força resultante da soma do número de salas, representando um maior percentual de mercado. Esta Associação seria um guarda-chuva mercadológico, com uma única Marca, website, programação, marketing, distribuição física, serviços técnicos e equipamentos.

 

Principais Ações

A Associação defenderia o nome dos operadores de cinema brasileiros em nível internacional, nacional, regional e local.

Isso inclui o trabalho com o governo em todos os níveis, com outros setores da indústria cinematográfica, particularmente de distribuição, bem como trabalhar com outros para promover a valorização do cinema para o público mais amplo. Além disso, deverá fornecer orientação e apoio aos membros individuais na interpretação e aderência à legislação e regulamentação e em lidar com questões operacionais do dia-a-dia, visando padronização e ganho de escala.

 

Benefícios aos Associados

Ao se associar o Exibidor vai garantir que sua voz seja ouvida para abordar todos os desafios inerentes ao negócio de exibição de conteúdo cinematográfico e alternativo. O ponto principal é a força coletiva da associação para tratar dos assuntos de seu interesse com distribuidores, governo e fornecedores, tais como:

  • Otimização da marca, criando maior notoriedade no mercado;
  • Maior força e representatividade na negociação com as Administradoras de Shopping, Distribuidoras, Fornecedores de equipamentos, bomboniere, Prestadores de serviços técnicos, satélite e monitoramento;
  • Otimização da Operação, dos canais de distribuição e logística, permitindo a adoção de preços competitivos e com ganhos de escala;
  • Planejamento de mercado compartilhado na rede existente, permitindo investimentos em publicidade financeiramente sustentáveis;
  • Desenvolvimento de recursos humanos, com cursos regulares de capacitação e treinamento ao Associado;
  • Produção e desenvolvimento de novos produtos e serviços para o Associado;
  • Viabiliza ações de promoção e de marketing de forma conjunta e coordenada, sem perder a representatividade local.

 

 

Fonte da imagem destacada: Reprodução/LivroSalasdeCinemaemSP/InimáSimões/LeonLiberman

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Profissional com mais de vinte e cinco anos de atuação nas áreas de entretenimento, broadcast e serviços corporativos, com atuação direta em ações de desenvolvimento e estruturação de negócios no Brasil e exterior, startups e fusões.

Vivência efetiva como Executivo e Consultor, com destaque para os projetos da Quanta, MasterImage 3D, Telem, Universal Networks, TVA, TV Brasília e TV Goiânia. Empresas onde exerceu efetiva gestão nas definições estratégicas e desenvolvimento dos negócios.

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