A Mcdonaldização da Indústria Cinematográfica - LFMORAU

Mcdonaldização da Indústria Cinematográfica

A Mcdonaldização da Indústria Cinematográfica

De acordo com George Ritzer, autor do livro, A Mcdonaldização da Sociedade, o sucesso da gigante rede de fast-food gira em torno de quatro elementos que compõem sua cadeia de valor: eficiência, previsibilidade, calculabilidade e gestão.

Qualidade do produto final questionável, homogeneidade e padronização dos processos, também, podem ser citados como características predominantes da rede.

Além de muita influência do taylorismo e fordismo em seu processo produtivo. Afinal de contas, o Mc Donald’s surgiu justamente num período que os ideais destes processos industriais fervilhavam nos Estados Unidos.

A ideia deste livro é indicar que estes princípios, pouco a pouco, estão dominando diversos outros setores de nossa vida pessoal e profissional.

Pensando em todos estes elementos que caracterizam esta tal sociedade mcdonaldizada e, dadas as devidas proporções, podemos questionar se isso, também, não está contagiando o audiovisual, sobretudo a indústria do cinema.

A comédia popular seria o fast-food tupiniquim?

Primeiramente, vamos contextualizar o sistema de produção/distribuição/exibição nacional.

É importante ressaltar a “obrigação” do exibidor em limitar parte de sua janela de exibição às produções nacionais, a famigerada cota de tela.

Pelas minhas pesquisas, tal cenário começou a ser estruturado nos tempos de Getúlio Vargas, sendo seu embrião o artigo 13 do decreto Nº 21.240, onde informa que é sabida a capacidade do mercado cinematográfico brasileiro, além da quantidade e a qualidade dos filmes de produção nacional, logo, o Ministério da Educação e Saúde Pública deveria fixar a proporção da metragem de filmes nacionais a serem obrigatoriamente incluídos na programação de cada mês do exibidor.

Outro ponto de atenção são as leis de incentivo que financiam produções locais sem o devido acompanhamento no cumprimento de padrões de qualidade pré-estabelecidos. Embora, o objetivo para a criação destes mecanismos tinha relação com a concorrência de igual para igual com o forte esquema de distribuição norte-americano, numa disputa que se estende até os nossos dias.

Ainda que não haja opinião unânime quanto à qualidade dos longas produzidos, com ou sem recursos, é importante dar atenção às obras que atingem uma parcela significativa do público, principalmente a comédia popular. Afinal de contas, a identidade do cinema brasileiro com a comédia é histórica e não justificaria resistências para os cineastas que objetivem a aderência da massa ao seu conteúdo nos complexos exibidores.

É um produto com maior potencial de geração de receita e, consequentemente, com grande apelo à distribuição.

Do ponto de vista da produção nacional, a maioria dos títulos que pertencem ao gênero cômico são os poucos capazes de competir com os longas estrangeiros nas salas de cinema comercial, embora muitos acabam execrados pelos críticos e intelectuais.

No entanto, o quão diferenciadas são estas produções entre si?

É notável que, além da quantidade de filmes deste gênero, quase sempre presentes nos principais complexos cinematográficos, muitos acabam seguindo um modelo de franquia que se mostra cada vez mais forte e baliza o ambiente produtivo e as bilheterias.

Observem os últimos sucessos do gênero, muitos vieram da televisão, vide Carrossel 1 e 2 , Vai que Cola e Os Cara de Pau.

Outra franquia que vale ser citada é a do bem sucedido canal do YouTube, Porta dos Fundos. Sem falar nas continuações como o Vai que dá Certo 2, Até que a Sorte nos Separe 3,  Minha Mãe é uma Peça 2 e por aí vai.

Os princípios citados lá no começo do texto são evidentes nesta cadeia: conteúdo produzido em larga escala, com questionável padrão de qualidade, seguindo uma mesma fórmula de sucesso com certa redundância e com garantias de seu destaque nas principais praças.

E com Hollywood não é nada diferente…

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Se observarmos no detalhe, a linha produtiva de Hollywood, também partilha de muitas semelhanças com um fast-food.

Perceba que sempre consumimos seus produtos repetitivamente nos grandes circuitos exibidores e no geral, alimentamos expectativas de algo que nos surpreenda de vez em quando por conta da influência das diversas campanhas promocionais em torno de alguma nova produção.

Mas no final das contas esse novo nem é tão novo assim, sendo apenas a famosa reciclagem de temas universais estrelados por diferentes atores e atrizes. E os longas de fantasia e super-heróis são os que mais me chamam a atenção neste contexto de produção escalada e massificada.

E falando de super-heróis, é só notar o excesso praticado de uns anos pra cá, justificável nas polpudas bilheterias, banalizando o gênero.

O problema não é somente o excesso, mas também o molde industrial trabalhado pela Marvel e DC que acabam caracterizando tais filmes naquele combo do Mc Donald’s onde o sanduíche e a bebida são sempre os mesmos, só que com uma roupagem diferenciada da embalagem.

Este é o gênero que traz segurança do ponto de vista produtivo e de bilheteria, mas inevitavelmente, está se desgastando brutalmente como outrora – lembram dos fracassos da década de 90? -, vide as avaliações dos últimos lançamentos como Batman vs. Superman e do último filme do X-men, todavia, isso não se reflete em resultados de bilheteria, que é o que importa para o estúdio/distribuidor.

Bom, o que dá para estimar é que teremos material garantido nos próximos quatro anos, dê uma olhada na imagem abaixo:

filmes-de-super-herois-ate-2020
Escolha o seu prato favorito!

O universo dos super-heróis vem, primariamente, dos quadrinhos. E não falta material adaptável que podem ser utilizados para criar novas experiências cinematográficas como arcos e diferentes sagas que podem ser transportados para as telas. Talvez, seja o formato de longa-metragem que não permita que tais experiências sejam plenamente exploradas, deixando vários “buracos” nas narrativas, apesar do espetáculo na experiência audiovisual do ponto de vista tecnológico.

Possivelmente, daqui alguns anos o mainstream dos super-heróis podem acabar migrando para as séries televisivas/streaming que já são um sucesso de audiência e crítica, vide Demolidor, Agentes da S.H.I.E.L.D, Gotham, Jessica Jones e outros.

Isso tudo é um grande achismo da minha parte.

Esse lance da mcdonaldização na qual tematizei o texto, é visto como um sintoma por mim que pode ser ruim para uns, bom para outros… No entanto, se considerarmos apenas os dois casos que citei neste texto, a produção nacional com suas comédias e as produções estrangeiras com seus super-heróis, é notável que ambos partilham do mesmo prognóstico: um prazo de validade curto e roteiros sem grandes ambições que não arriscam por medo de botar tudo a perder.

E assim como em qualquer gênero, o ato de correr riscos é essencial, caso contrário, continuaremos a presenciar produções que apenas promovem a satisfação de curto prazo, descartáveis com o tempo, ao invés de criações que se mantenham relevantes para a posteridade.

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Profissional de vendas/marketing, pós-graduado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing e altamente especializado em tecnologias para o mercado audiovisual. Conta com mais de 10 anos de experiência na área, tendo passado por diversas empresa como Gameloft, Telem e Quanta DGT. Atualmente é Gerente de Vendas da Quanta DGT, principal integradora do processo de VPF (Virtual Print Fee) no Brasil, responsável pela digitalização de mais de 1.000 salas de cinema no país.

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